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San Pedro de Atacama – Calama (102 km em ônibus)

Acordei e pensei que estava melhor, na verdade estava igual, mas pensava que estava melhor. As vezes é bom dizer a para si próprio que tudo está bem, só que nem sempre funciona.
Assim, tentando me enganar, aproveitei para fazer uma atividade que um turista normal faria, fui conhecer os Geysers de Tatio, atravéz de um tour que um pessoal de San Pedro faz. Porém, isso não é o mais curioso desse ritual. Ele deve retirar o coração da lhama de seu corpo enquanto esse ainda estiver pulsando.
Tatio é o nome do lugar, que numa lingua nativa da região significa “homem que chora”, pois entre a cadeia de montanhas que cerca os geysers há uma montanha em que pode-se ver o rosto de um homem de perfil. Tem que fazer um pouco de esforço e soltar a imaginação, daí você vê. E a água quente que sai do chão seria na verdade as lágrimas desse homem segundo os indígenas.
Os geysers estavam numa altitude boa, de mais ou menos 4.300 metros, o suficiente para me fazer lembrar do frio do Deserto do Atacama, porém agora estava pior, pois eu estava fraco e debilitado. Se um daqueles geysers cuspisse água de repende, me dando um susto, eu poderia até cagar nas calças. Foi alí entre os geysers que eu descobri que não estava bem ainda e que seria bom que eu guardasse minhas energias.
Como tinha algumas restrições devido ao meu estado delicado não pude entrar numa piscina termal que havia por alí. Tive vontade, mas não aguentaria a oscilação de temperatura ou pior, poderia ter uma crise de diarréia na piscina natural. Seria o fim da piscina e eu seria expulso do Chile como persona non grata.
Depois de ver esse fenômeno, que se processa com mais intensidade nas primeiras horas da manhã, pois é nessa hora que a água congelada pelo frio da noite começa a derreter e a descer em direção às rochas escaldantes, que fazem a águar ferve a 85 graus (devido à altitude) e produz todo aquele vapor e reações características de um geyser.
Depois de conhecer esse lugar, que é um parque e para se entrar deve-se pagar e ter um guia, eu e outros turistas curiosos fomos para um pequeno vilarejo chamado Machuca, situado a 4.200 metros de altitude. O lugar era realmente bonito e interessante, mas minha dor de barriga fazia com que tudo fosse feio e desagrável, exceto um sonhado enorme banheiro completamente limpo, onde eu pudesse passar o dia todo.
O que mais me interessou na cidade foi saber de um costume antigo que tal povo tinha. Não era um costume exclusivo deste povoado, pois tal ritual também era praticado em outros raros lugares. Trata-se de uma comemoração realizada no dia 2 de fevereiro de todo ano. Nesta data, para pedir a ajuda da Pachamama o dono do rebanho pega uma lhama, que já vinha “floreando” (enfeitando, decorando) há algum tempo e a mata como sacrifício para a Mãe Terra.
Porém, isso não é o mais curioso desse ritual. Ele deve retirar o coração da lhama de seu corpo enquanto esse ainda estiver pulsando, para que ele dê suas últimas contrações fora do corpo do animal. Só assim a comemoração foi um suscesso, caso contrário a Mãe Terra castiga e o ano será uma porcaria. Depois disso o animal é dividido ao meio e levado para a frente da igreja, onde as pessoas ficam dançando com as metades do animal. Parece que todos gostam muito dessa festividade, mesmo a lhama.
Quando estava no caminho de volta sonhava com um banheiro, o que só encontrei no meu hotel. Depois de ver que na verdade eu estava piorando depois de algumas doses do medicamento indicado para mim, voltei ao hospital para perguntar se aquilo era normal. A resposta foi que eles não podiam fazer mais nada e eu deveria ir até uma cidade próxima dali, chamada Calama, para fazer exames e assim receber o medicamento correto.
Percebi que eles haviam dado qualquer coisa para mim. Não tive dúvidas, peguei minhas coisas e fui para Calama. E não pense que eu fui de bicicleta, porque eu não fui mesmo, 10 quilômetros seriam suficinete para que eu desmaiasse. Fui de ônibus. E chegando em Calama fui ao hospital e descobri que eu teria que pagar uma boa quantia para ser atentido e uma outra quantia ainda maior para fazer os exames que eu precisava.
Nessa hora (de aperto) lembrei que eu tinha um seguro de saúde internacional, que ainda não tinha usado. Na verdade eu nem sabia como funcionava. Fui descobrir. Liguei para o número do cartão e conversei com uma brasileira que foi super rápida e em poucos minutos já estava me retornando a ligação com o endereço do local onde eu poderia ser atendido.
Uma coisa que eu esqueci de falar é que aqui no Chile é feriado hoje, se eu não me engano Corpus Christi. Isso é muito importante de se mencionar, pois quando eu cheguei na clínica indicada, havia apenas um médico, que estava com uma cara de quem estava fazendo plantão há 2 dias, uma enfermeira e uma recepcionista. Todos muitos felizes por estarem trabalhando no feriado.
O resultado foi 1 hora de espera e mais 3 horas para os exames e coisas do gênero. O melhor foi o exame de fezes. A enfermeira me deu um frasco do tamanho de uma tampa de garrafa, uma luva e apontou para o banheiro. Dei risada. Teria que ter uma mira muito boa para acertar aquele potinho. Não tinha escolha.
Depois de 10 minutos sai com o recipiente cheio e o dei de presente para a enfermeira. Depois disso só tive que esperar mais 2 horas, até tudo ficar pronto. Quando estava pronto o médico fingiu que leu – digo fingiu que leu porque nem se ele tivesse a leitura mais dinâmica de todas leria 4 páginas em menos de 3 segundos, só se ele fosse vidente – e me deu um novo remédio e a famosa dieta da bolacha de água e sal e gelatina.
Saí do lugar com a esperança de tudo estar certo desta vez. Fui até a farmácia e comprei os novos venenos que teria que tomar. Depois foi só repouso.
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